Declaração
da
Conferência Europeia e
Cidadã para a Paz na Ucrânia, Rússia e Europa
A Conferência
Europeia e Cidadã para a Paz na Ucrânia, Rússia e Europa teve lugar em 22 de Novembro de 2025, em
Lisboa.
Na sua alocução final,
proferida pelo major-general Raul Luís Cunha, o comité de organização da
Conferência, conhecido informalmente como “Os Quatro Mosqueteiros pela Paz”, assumiu a responsabilidade de redigir uma Declaração formal
oficialmente intitulada Declaração da Conferência
Europeia e Cidadã para a Paz na Ucrânia, Rússia e Europa.
Esta Declaração tem um
duplo propósito. Por um lado, descreve de forma abrangente as medidas
inicialmente especificadas no documento fundador da Conferência, dando ênfase
às acções que foram identificadas como sendo as de maior prioridade e urgência
nesse documento fundador. Por outro lado, está enriquecida pelas diversas
contribuições feitas pelos participantes antes, durante e depois da
conferência, garantindo que as perspectivas e sugestões compartilhadas estejam
devidamente incorporadas.
É esta Declaração, que
teve o seu próprio tempo de maturação [22 de Dezembro de 2025-26 de Janeiro de
2026], que agora se publica. Lisboa, 31 de Janeiro de 2026.
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O plano belicista dos EUA, União Europeia e Reino Unido
«É preciso sufocar a Rússia
economicamente, isolá-la diplomaticamente e enfraquecê-la militarmente por
interposta Ucrânia, para alimentar no seu seio forças que conduzam ao seu
desmembramento numa miríade de pequenos Estados impotentes ou falhados».
Esta é a sinopse do plano belicista que justificou,
durante os últimos 4 anos, uma guerra prolongada na Ucrânia e na Rússia (cf. os
relatórios da Rand Corporation, Extending Russia e Overextending and Unbalancing Russia,
ambos publicados em 2019) — uma guerra que parece encaminhar-se agora
para o fim.
Falamos de uma guerra que era evitável
— se os EUA não tivessem instigado e apoiado o golpe
de Estado sangrento que, em 22 de Fevereiro de 2014, derrubou, sem qualquer
suporte constitucional, o presidente da Ucrânia livremente eleito, Viktor
Ianukovytch;
— se a Alemanha, a França e a Polónia não tivessem
imediatamente reconhecido (tal como a chefe da diplomacia da União Europeia, a
baronesa Catherine Ashton de Upholland) o governo ilegal saído desse golpe de
Estado, renegando inclusivamente compromissos espúrios (mas que eram já
altamente favoráveis aos golpistas) que os seus Ministros dos Negócios
Estrangeiros tinham mediado e testemunhado nos dias anteriores para evitar mais
derramamento de sangue;
— se a Ucrânia, a França e a Alemanha tivessem
cumprido os Acordos de Minsk (2014, 2015) que foram celebrados entre Ucrânia e
as Repúblicas Populares de Donetsk (RPD) e Lugansk (RPL) e que tinham sido
mediados e avalizados pela França e pela Alemanha (por parte da Ucrânia) e pela
Rússia (por parte da RPD e da RPL), em vez de os sabotarem ciente e
sistematicamente, alimentando uma guerra fratricida na Donbass que fez mais de
14 mil mortos durante 8 anos (2014-2022);
— se a OTAN e os EUA tivessem aceitado discutir as
propostas de Acordo e Tratado que a Rússia lhes apresentou, respectivamente, em
17 de Dezembro de 2021, no sentido de (i) deter o alargamento pérfido da
OTAN em direcção às fronteiras russas, (ii) impedir a entrada da Ucrânia
na OTAN (que, agora, com um país exangue e semidestruído, Zelensky já se diz
disposto a acatar) e (iii) garantir a segurança mútua da Rússia e dos
Estados-membros da OTAN.
Falamos de uma guerra que poderia ter parado e dado
lugar a uma solução pacífica e muito favorável à Ucrânia em três ocasiões, pelo
menos:
— em 28 de Fevereiro de 2022 nas negociações
que tiveram lugar em Gomel, na Bielorrússia, entre delegações dos dois países
beligerantes;
— de 5 de Março a 20 de Março de 2022 nas
negociações entre os dois países mediadas por Naftali Bennett, 1.º ministro de
Israel;
— de 29 de Março a 5 de Abril de 2022, em
Istambul, nas negociações entre delegações dos dois países.
mas que continuou sempre, em todas essas ocasiões, por
pressão e incentivo dos EUA, do Reino Unido e da UE, causando muitas centenas
de milhares de mortos, feridos e estropiados entre os militares envolvidos e
mantendo a população da Europa inteira em suspenso, refém dos seus macabros
resultados — incluindo o risco elevado, que esteve sempre presente, de uma
escalada para um patamar de letalidade máxima que nos arrastaria a todos para
um holocausto nuclear.
Uma boa notícia
A boa notícia é que este plano belicista e as
narrativas apologéticas que alimentou estão agora a desmoronar-se, incapazes de
resistir ao confronto com a realidade da sua derrota estratégica em todas as
frentes: militar, económica e política.
O golpe de misericórdia foi-lhe assestado em público,
aos olhos do mundo inteiro, no dia 4 de Dezembro de 2025, quando foi divulgada
a nova Estratégia
de Segurança Nacional dos EUA (ESN, para abreviar).
Os EUA batem em retirada
Nesse documento de 29 páginas, os EUA, principal motor
da guerra na Ucrânia durante o mandato de Joe Biden, colocam agora a
restauração das relações normais com a Rússia e o rápido fim do conflito
ucraniano no centro da sua nova estratégia.
«É do interesse fundamental dos EUA negociar um fim imediato das
hostilidades na Ucrânia», diz
o documento, «para estabilizar as
economias europeias, prevenir uma escalada ou extensão involuntária do conflito
e restaurar a estabilidade estratégica com a Rússia, bem como para permitir a
reconstrução da Ucrânia após as hostilidades, a fim de possibilitar sua
sobrevivência como um Estado viável».
Nele se diz que os EUA estão prontos para
um «compromisso diplomático significativo» para «ajudar a Europa a corrigir a sua trajectória actual», «restaurar a estabilidade no continente europeu e reduzir o risco de conflito
entre a Rússia e os Estados europeus».
O documento também anuncia o fim da
expansão da OTAN(/NATO) — uma reivindicação que a Rússia fez repetidamente
durante os últimos 26 anos, qualificando-a como uma das causas fundamentais (“root
causes”) do conflito ucraniano, que a Rússia considera, realisticamente,
como uma guerra por procuração contra a Rússia travada pelo “Ocidente alargado” sob a tutela e chefia dos EUA.
Os
EUA reconhecem o seu declínio como superpotência
Globalmente, esta nova estratégia dos EUA
marca um ponto de viragem. Abdica do tipo de intervencionismo global ⎼ ou, pelo menos, limita-o ⎼ que caracterizou a política externa dos
EUA desde o fim da 2.ª Guerra Mundial, e sem rebuço desde o fim da “Guerra
Fria”, até ao fim do mandato do presidente Joe Biden, optando por uma política
externa dos EUA mais transaccional e mais selectiva geopoliticamente de forma a
assegurarem a sua hegemonia no hemisfério ocidental (o qual inclui a América do
Norte, do Centro e do Sul,
partes enormes do Oceano Pacífico e do Oceano Atlântico, bem como partes da
Europa e África) e evitarem que os EUA sejam suplantados pela China à escala
global.
Fora desse vasto âmbito, os EUA, argumenta
o documento, só devem intervir no exterior quando os seus “interesses nacionais vitais, fundamentais” estiverem ameaçados por outros Estados.
Mas o ponto principal é o seguinte. Através da recauchutagem da Doutrina Monroe num sentido explicita e descaradamente imperialista de domínio do hemisfério ocidental, que erigiram como sua primeira prioridade (e de que a intenção declarada de anexar a Gronelândia foi o primeiro anúncio e o bloqueio económico à Venezuela, seguido do ataque armado e rapto do seu presidente, são a primeira confirmação), os EUA reconhecem tacitamente, pela primeira vez, que já não são a potência hegemónica à escala mundial; e que a época em que actuavam como polícias supremos do planeta e se arvoravam o direito de cometer, com toda a impunidade, toda a espécie de tropelias e irregularidades em nome da (sua) “liberdade” e da (sua) “segurança”, pertence definitivamente ao passado.
Ao mesmo tempo, os EUA alimentam ainda,
para consumo interno e dos seus aliados/vassalos na Europa, Ásia e Oceânia, a
doce ilusão de que continuarão a ser «o país mais forte, mais rico, mais poderoso e mais bem-sucedido do Mundo
nas próximas décadas». Mas
a realidade aponta numa direcção diferente. «O tempo em que os Estados Unidos sustentavam toda a ordem
mundial, como Atlas sustentava o mundo, acabou», lê-se no documento.
Todos sabemos o que isso significa: a
ascensão da China ao lugar de primeira potência económica do planeta (19,4% do
PIB mundial em paridade de poder de compra (PPC), contra 14,52% dos EUA) e o
ressurgimento económico da Rússia (quarta maior economia, em PPC, a seguir à
China, aos EUA e à Índia) e a influência crescente de ambas na cena
internacional (BRICS+). A própria ESN reconhece que «a região Indo-Pacífica é já responsável por quase
metade do PIB mundial com base na paridade do poder de compra /…/
Esta participação irá certamente aumentar ao
longo do século XXI».
O pensamento geopolítico de Donald
Trump
Os EUA, com Trump, já não conseguem dissimular e, das
últimas vezes (Irão, Venezuela), já nem sequer se têm esforçado por disfarçar,
o seu desprezo pelo direito internacional.
O exemplo mais recente diz respeito à apropriação
indevida de uma Resolução do Conselho de Segurança da ONU (a Resolução 2803,
adoptada pelo Conselho de Segurança da ONU a 17 de Novembro de 2025) que tinha
como objectivo alegado estruturar um armistício duradouro na Faixa de Gaza
pós-genocídio. Trump usou-a para formar a sua própria empresa internacional
extraterritorial, o chamado “Conselho da Paz”,
uma paródia da ONU da qual se autoproclamou presidente vitalício, com todos os
poderes de decisão, e com a qual, provavelmente, conduzirá negócios em todo o
mundo, rotulando-os como esforços de consolidação e manutenção da paz.
O outro exemplo recente é o do discurso em Davos
(Suíça) em que Trump informou um auditório siderado de que os EUA se vão
apoderar de um «grande e belo pedaço de gelo» [a
Gronelândia] que não lhes pertence, em troca dos serviços que têm prestado à
Dinamarca e aos demais países da UE através da OTAN, da qual foram e são os
principais financiadores.
«Tudo o que queremos da Dinamarca, para a segurança nacional e internacional, e para manter à distância os nossos potenciais inimigos, muito enérgicos e perigosos, é essa terra onde vamos construir a maior cúpula dourada [escudo antimísseis] de sempre». «E tudo o que estamos a pedir é a Groenlândia, incluindo o direito, o título de posse e a propriedade, porque precisamos da propriedade para defendê-la, não se pode defendê-la com base num contrato de arrendamento».
«Precisamos da Gronelândia por razões de
segurança estratégica nacional e segurança internacional» [acrescentou
Trump], porque essa enorme ilha «faz, realmente,
parte da América do Norte, na fronteira norte do Hemisfério Ocidental. Esse é o
nosso território. Constitui, portanto, um interesse fundamental da segurança
nacional dos Estados Unidos da América e, de facto, tem sido nossa política, há
centenas de anos, impedir que ameaças externas entrem no nosso hemisfério, e
temos feito isso com muito êxito. Nunca estivemos tão fortes quanto agora /…/. Só os Estados
Unidos podem proteger essa imensa massa de terra, esse gigantesco pedaço de
gelo, desenvolvê-lo e melhorá-lo, tornando-o bom para a Europa, seguro para a
Europa e bom para nós».
Mesmo no caso da Rússia, que respeitam como potência
nuclear superior e com a qual tentam estabelecer agora um modus vivendi,
os EUA não perdem qualquer ocasião para lhe desferirem ataques destinados a
enfraquecê-la económica e politicamente. O abuso da força e a desfaçatez têm
estado e continuarão, presentes em permanência na política externa dos EUA e
não faltam os exemplos, até no que vem ocorrendo no conflito Ucrânia-Rússia.
Em 6 de Junho de 2025 a Ucrânia realizou
ataques contra infra-estruturas ligadas à tríade nuclear russa, especificamente
através da Operação Teia de Aranha, visando bases aéreas e sistemas de alerta
precoce. Foram ataques que nunca poderiam ter sido realizados sem o apoio
americano.
Em 22 de Outubro de 2025, o presidente Trump
decretou pesadas sanções directas às duas maiores empresas petrolíferas russas,
a Rosneft e a Lukoi, assim como a 34 das suas subsidiárias.
Foi também a partir de Outubro de 2025 que o
governo Trump tornou a autorizar a
a ampliação do fornecimento de informações
militares destinadas a ajudar a Ucrânia a atacar a Rússia. Esta ajuda inclui: (A)
dados específicos (tais como coordenadas e cálculos de trajectória de voo para
armas guiadas com precisão) sobre alvos para ataques no interior da Rússia,
visando particularmente infra-estruturas energéticas críticas, como refinarias
de petróleo, oleodutos e centrais eléctricas; (B) imagens de satélite de
radar de alta resolução, tanto de satélites de nível militar como de satélites
comerciais, que são essenciais para monitorizar movimentos em condições
meteorológicas adversas ou à noite; (C) intercepção de comunicações
militares e assinaturas electrónicas russas, ajudando a Ucrânia a rastrear
movimentos de forças, interromper operações secretas e combater barragens de
mísseis; (D) sistemas de conhecimento da situação em tempo real e
alertas precoces sobre lançamentos russos de mísseis balísticos, mísseis de
cruzeiro e drones; (E) dados técnicos sobre a guerra cibernética
russa para ajudar a Ucrânia a defender as suas redes e infra-estruturas
críticas.
Em 18 de Dezembro de 2025, o presidente Trump
assinou a Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA, na sigla inglesa) de
2026, que prevê 400 milhões de dólares por ano de ajuda militar à Ucrânia para
2026 e 2027 por meio da Iniciativa de Assistência à Segurança da Ucrânia (USAI).
E em 28-29 de Dezembro de 2025 foi o ataque com
91 drones a alvos situados na região da Novgorod (Rússia).
Em 1 de Janeiro de 2026, o almirante Igor Kostyukov,
chefe dos Serviços de Informações Militares da Rússia (GRU), [à esquerda na
foto] entregou ao adido militar da Embaixada dos EUA em Moscovo [à direita na
foto] provas físicas e digitais do alvo do ataque a Novgorod.
As provas fornecidas incluíam o controlador de voo
físico (unidade do sistema de navegação) de um drone abatido e dados de
rota descodificados de um “ficheiro de missão de voo”
alegadamente recuperado da sua memória. Kostyukov afirmou que os dados
descodificados confirmavam “inequivocamente”
que o alvo final do ataque de 29 de Dezembro de 2025 era a residência
presidencial de Vladimir Putin (!), em Valdai, na região de Novgorod. A CIA
veio imediatamente dizer que não tinha havido ataque nenhum à residência oficial
de Putin, e Trump, depois de um momento de hesitação, em que declarou estar “muito zangado” com o acontecido, fez marcha atrás e
acabou por dar razão e cobertura à CIA.
A mais recente proeza bélica do governo Trump contra a
Rússia data de 8 de Janeiro de 2026. Consistiu no apresamento ilegal de
um petroleiro com pavilhão russo num ponto situado algures entre a Islândia e o
Reino Unido. Dois pormenores reveladores: 1) o dito petroleiro ia com os
tanques vazios a caminho da Venezuela onde, presumivelmente, os ia encher; 2)
o petroleiro foi apresado pela Guarda Costeira dos EUA (!) que operava na
altura a cerca de 5.500 km da costa dos EUA (!!) que, supostamente, ela deveria
estar a “proteger” …
E tudo isto se tem passado, note-se, enquanto Trump se
reúne com Putin no Alasca com toda a pompa e circunstância, mantém negociações
permanentes com a Rússia através de “enviados
especiais” para pôr fim à guerra na Ucrânia e Rússia, acusa umas vezes
Putin outras Zelensky de serem um obstáculo à paz, e vai repetindo que lamenta
a mortandade causada por essa guerra nas fileiras ucranianas e russas!
As explicações psicológicas e psiquiátricas que muitos
analistas vêm adiantando para o comportamento de Trump (narcisismo maligno,
total falta de empatia, mitomania, egolatria, etc.), não são adequadas para
explicar os factos acima descritos. Tudo se esclarece, porém, se alargarmos os
nossos horizontes de pesquisa e aceitarmos um outro ponto de vista sobre esse
comportamento.
De facto, os recentes acontecimentos em diversos
pontos do globo –, Israel/Palestina, Israel/Irão, Azerbaijão/Arménia,
Malásia/Tailândia, China/ Filipinas, China/Taiwan, Síria, Nigéria, Venezuela,
etc. e ainda as ameaças de intervenção na Gronelândia ‒, indicam objectivamente
que os EUA, pela mão de Trump, não abdicam do seu lugar de potência hegemónica
e tudo estão e continuarão a tentar para permanecer nessa posição, apesar do
seu declínio industrial, tecnológico, científico, cultural e até militar na cena
mundial.
Embora Trump seja o presidente de um país onde se
confrontam dois grandes partidos com visões distintas ao nível da política
interna dos EUA, constatamos que os interesses e visões do complexo
político-militar-industrial-mediático americano não divergem quanto ao que
consideram ser o lugar dos EUA no mundo.
Assim, para manterem a sua hegemonia, os EUA decidiram
assumir-se, sem complexos e sem contemplações, como os donos e os marshals de todo
o hemisfério ocidental — a sua primeira prioridade estratégica. É a partir da
fortificação dessa posição no hemisfério ocidental, cujo território tencionam
tratar como se fosse uma coutada sua, que os EUA julgam estar em condições de
continuar a definir o seu alinhamento externo e a intervir, sempre que
necessário, noutras regiões do planeta, para evitar a perda da sua influência e
dos frutos da sua exploração e, consequentemente, mitigar o seu declínio
relativo na cena mundial.
É este o sentido actual do pensamento geopolítico de
Donald Trump, que se encontra plasmado no documento Estratégia Nacional de Segurança dos
EUA (ENS) que já citámos.
A
União Europeia e o Reino Unido entram em desvario
Este reposicionamento estratégico dos EUA
esbarra, neste lado do Atlântico, contra sentimentos de despeito e
ressentimento. O
chanceler Merz declarou no congresso da União Social-Cristã da Baviera
(14-12-2025):
«As décadas da Pax Americana para a
Europa e a Alemanha chegaram praticamente ao fim para nós. Ela já não existe
como a conhecíamos. A nostalgia não nos ajudará, e eu seria a
última pessoa a ceder a essa nostalgia. Esta é a realidade! Os americanos estão
agora a defender ferozmente os seus interesses. E é por isso que nós agora
temos de defender os nossos interesses».
A Pax Americana (expressão em latim para «Paz Americana») mencionada por Merz refere-se a um período e uma
ordem estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial, e sem rebuço desde o fim da
“Guerra Fria”, caracterizados pelo domínio militar, económico e diplomático
global dos Estados Unidos, que, além disso, assumiram a maior parte das
despesas e responsabilidades com a OTAN.
Desconsiderados pelo seu patrono, hoje
representado por Donald Trump (a quem o
secretário-geral da OTAN, Mark
Rutte, chama afectuosamente “papá”), a União Europeia e o Reino Unido
entraram em desvario. O vazio deixado pelo recuo e
reposicionamento estratégico dos EUA foi preenchido por um enxame patético de declarações mirabolantes e
provocatórias e de acções desatinadas por parte dos governantes e eurocratas
europeus e dos seus corifeus militares.
No dia 1 de Novembro de 2025, o general Fabien Mandon, chefe do Estado- Maior das Forças Armadas de França, declarou ao congresso da Associação dos Autarcas Franceses:
«Infelizmente, a Rússia hoje ‒ sei isso pelas informações a que tenho
acesso ‒ está a preparar-se para um confronto com os nossos países em 2030.
Está a organizar-se para isso, está a preparar-se para isso e está convencida
de que o seu inimigo existencial é a OTAN, são os nossos países. /…/
«E a Rússia de hoje está convencida de que os europeus são fracos. Está
convencida disso. No entanto /…/ somos fortes. Somos fundamentalmente fortes.
Somos fundamentalmente mais fortes do que a Rússia. /…/ Temos todo o conhecimento, toda a força económica e demográfica para
dissuadir o regime de Moscovo de tentar a sua sorte mais longe. O que nos falta
‒ e é aqui que vocês têm um papel importante ‒, é a força de alma para aceitar
sofrer para proteger o que somos. /…/
Se o nosso país vacilar, porque não está
preparado para aceitar perder os seus filhos (porque é preciso dizer as coisas
como elas são), para sofrer economicamente (porque as prioridades serão
atribuídas à produção de defesa, por exemplo), se não estivermos preparados
para isso, então estamos em risco. Mas penso que temos a força de alma
necessária».
No dia 25 de Novembro de 2025, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha,
Johann Wadephul, declarou, na
plataforma X, que a Rússia se está a preparar para
atacar a OTAN. Foi a terceira vez nesse mês que governantes alemães se
pronunciaram sobre um potencial confronto com a Rússia nos próximos quatro
anos.
«Putin está de olho na UE e na OTAN. Os nossos serviços secretos de informações estão a emitir alertas urgentes: no mínimo, a Rússia está a criar a opção de entrar em guerra contra a OTAN até 2029. Temos de dissuadir novas agressões russas, juntamente com os nossos parceiros e aliados» /…/. «A ameaça da Rússia ao nosso país já não é uma preocupação distante; é já uma realidade», afirmou Wadephul.
No dia 1 de Dezembro de 2025, o almirante Giuseppe Cavo Dragone,
presidente do Comité Militar da OTAN, declarou ao Financial Times: «Ser mais agressivo ou proactivo em vez de
reactivo é algo que estamos a considerar» O almirante acrescentou que um «ataque preemptivo»
contra a Rússia pode ser considerado uma «acção defensiva».
O presidente da Rússia, Vladimir Putin,
respondeu-lhe à letra, numa entrevista, no dia seguinte:
«Não estamos a planear entrar em guerra contra a Europa. Já disse isso centenas de vezes. Mas se a Europa quiser entrar em guerra contra nós e, de repente, iniciar uma guerra contra nós, estamos prontos. Não deve haver dúvidas quanto a isso».
E acrescentou uma verdade óbvia para quem
usa a cabeça para pensar e aprender — e para quem sabe, além disso (como se
presume que todas as chefias militares dos Estados-membros da OTAN saibam), que
a Rússia é a primeira potência nuclear do planeta e que possui uma panóplia de
mísseis hipersónicos e de médio e longo alcance (Avangard, Zircon, Kinzhal, Oreshnik),
bem como outras super-armas (o míssil balístico intercontinental Sarmat, o míssil de cruzeiro intercontinental Burevestnik, com motor nuclear, e o drone subaquático (/torpedo) intercontinental Poseidon, com motor nuclear) que mais
nenhuma outra potência nuclear possui:
«A única questão é que, se a Europa, de repente, iniciar uma guerra contra nós, acho que [acabará] muito rapidamente... A Europa não é a Ucrânia. Na Ucrânia, estamos a agir com precisão cirúrgica. Compreende o meu ponto de vista, não compreende? Não é uma guerra no sentido directo e moderno da palavra. Se a Europa decidir repentinamente entrar em guerra contra nós e realmente o fizer, então poderá surgir muito rapidamente uma situação em que ficaremos sem ninguém com quem negociar».
No dia 11 de Dezembro, de 2025, Mark Rutte, secretário-geral da OTAN,
decidiu interpretar esta advertência inequívoca de Putin para a OTAN não
brincar com o fogo (atómico) como se fosse um pré-aviso de um ataque da Rússia
em preparação.
«Somos o próximo alvo da Rússia. E já estamos em perigo. A Rússia trouxe a guerra de volta à Europa, e temos de estar preparados para uma guerra da mesma magnitude que os nossos avós e bisavós enfrentaram. Imaginem só: um conflito que atinge todas as casas, todos os locais de trabalho, destruição, mobilização em massa, milhões de deslocados, sofrimento generalizado e perdas extremas».
No dia 15 de Dezembro de 2025, o marechal-chefe da Força Aérea Britânica e chefe do Estado-Maior da Defesa, Richard Nayton, seguiu na peugada de Rutte, declarando que toda a população do Reino Unido se deve preparar para entrar em guerra contra a Rússia.
«Filhos e filhas. Colegas. Veteranos./.../ todos terão um papel a desempenhar. Para construir. Para servir. E, se necessário, para lutar. E mais famílias saberão o que significa sacrificar-se pela nossa nação».
Os
objectivos da UE e do Reino Unido e o seu efeito colateral
Estas declarações destes altos dignitários civis e militares da União Europeia (UE) e do Reino Unido (RU) não são tão absurdas ou alucinadas quanto parecem ser à primeira vista. “Há método na sua loucura”, como disse Polónio no Hamlet de Shakespeare.
O seu primeiro objectivo imediato é o de intimidar a
população dos países europeus membros da UE e da OTAN, agitando o papão de uma
fantasiosa ameaça de invasão russa.
O seu segundo objectivo imediato é o de justificar as
despesas colossais destinadas a satisfazer os interesses do complexo
militar-industrial americano (CMIA) e do complexo militar-industrial europeu
(CMIE) — o aumento anual em 5% do PIB até 2035 das despesas militares dos
Estados-membros da OTAN e o dispêndio de 800 mil milhões de euros até 2030 em
despesas militares dos Estados-membros da UE.
Subsidiariamente, os seus proponentes esperam que a
corrida aos armamentos na UE e no Reino Unido tenha a vantagem de fazer sair as
maiores economias da UE (Alemanha, França, Itália) e o Reino Unido do marasmo
económico em que se encontram em consequência dos efeitos boomerang das
sanções económicas que decretaram contra a Rússia e das drásticas tarifas
aduaneiras que lhes foram impostas por Donald Trump e que a UE aceitou
obsequiosamente.
Perante (i) a retirada dos EUA da guerra na
Ucrânia, (ii) o concomitante fim à vista dessa guerra e (iii) a
expectável implosão ou, pelo menos, (iv) a descredibilização completa da
OTAN (se se concretizar a anunciada anexação da Gronelândia pelos EUA — o
criador, patrono, mentor, comandante supremo e principal financiador da OTAN), a
exasperação impotente de Merz, Macron, Starmer e dos superburocratas que
dirigem a UE (Ursula von der Leyen, António Costa, Kaja Kallas) é de tal ordem
que estão dispostos a dar tiros nos próprios pés para tentar adiar a chegada da
hora da verdade.
Assim, numa jogada aparentemente ousada, a
União Europeia decidiu, no dia 11 de Dezembro de 2025, accionar o artigo
122.º (“emergência económica”) do Tratado de Funcionamento de União
Europeia para congelar indefinidamente os activos do Banco Central da
Rússia, no valor de 210 mil milhões de euros, em todo o território da UE. «Esta é uma mensagem poderosa para a Ucrânia:
queremos certificar-nos de que o nosso corajoso vizinho se torna ainda mais
forte no campo de batalha e à mesa das negociações», declarou Ursula von der Leyen.
Há outra maneira, diametralmente oposta, de
qualificar esta decisão. A Rússia não declarou guerra nem está em guerra contra
nenhum Estado-membro da UE. Por conseguinte, o congelamento sine die
(que é, na prática, uma confiscação) dos activos soberanos do Banco Central da
Rússia é uma violação gravíssima e sem precedentes do direito internacional
público, especificamente do princípio
da imunidade soberana (artigo 5.º da Convenção
das Nações Unidas sobre Imunidades Jurisdicionais, 2004).
O primeiro-ministro belga, Bart De Wever (que não pode ser acusado de simpatias pela Rússia, mas que não queria ver o seu país pagar sozinho pelas consequências de uma decisão insensata da maioria dos seus colegas) contestou a legalidade e a racionalidade dessa decisão e a existência de uma emergência económica que a legitime. Disse certeiramente e sem papas na língua:
«Trata-se de dinheiro de um país com o qual não estamos em guerra. Seria como entrar na embaixada [da Rússia], tirar toda a mobília e vendê-la».
Que pretende, então, a UE ao espezinhar
ostensivamente um princípio tão básico do direito internacional público? Duas
coisas: uma óbvia, outra capciosa.
A óbvia: empregar os activos soberanos do Banco Central da Rússia comoaval, para já, de um empréstimo de 90 mil milhões de euros a contrair pela UE junto das instituições financeiras onde estão depositados esses activos. Esse empréstimo seria, depois, concedido sem juros ao Estado ucraniano, para o “tornar ainda mais forte no campo de batalha” — entenda-se, para que possa continuar o seu esforço de guerra em 2026 e 2027, até ao esgotamento total. O empréstimo à Ucrânia ⎼ que, na verdade, é uma doação, porque a Ucrânia não é obrigada a reembolsá-lo se a Rússia não o endossar como “reparações” (o que nunca acontecerá) ⎼ foi por diante na reunião do Conselho Europeu de 18 de Dezembro de 2025, mas o aval com base nos activos do Banco Central da Rússia ficou pelo caminho, pelo menos temporariamente, devido, entre outras razões, à oposição aberta da Bélgica, Hungria, Eslováquia e Chéquia. Serão os outros Estados-membros da UE (incluindo a Bélgica) a pagar, com o dinheiro dos contribuintes, o empréstimo a contrair junto dos mercados financeiros, através de uma nova emissão de dívida conjunta, com recurso ao orçamento da UE.
A capciosa: garantir que o processo contencioso
que a Rússia iniciou simultaneamente em 14 jurisdições e que irá manter
prolongadamente contra os principais órgãos da UE para recuperar os seus
fundos, seja um seguro contra a normalização a curto ou a médio prazo das
relações entre a Rússia e a UE.
O efeito colateral destes dois objectivos é, porém, contrário a ambos. A UE, que gosta de se apresentar como potência normativa, farol do capitalismo globalizado e da “ordem-internacional-baseada-em-regras”, envia uma mensagem cristalina ao resto do mundo:
“O vosso dinheiro é bem-vindo na banca dos países da União Europeia, desde
que o depositante pense e actue como nós…”
A neutralidade financeira, outrora pilar do
sistema, passa a ser condicional. É uma mudança essencial que os bancos
centrais dos BRICS e de outros países não-alinhados certamente apreciarão,
mantendo-se à distância de segurança ou criando-a sem demora.
O
ódio visceral à liberdade de pensamento, de expressão e de circulação
Mas o desvario e a exasperação da UE e do
Reino Unido perante a perspectiva da derrota completa da sua linha de conduta
relativamente à guerra na Ucrânia ‒ ainda por cima com o seu mentor (os EUA)
lavando agora as mãos como Pilatos ⎼ manifestaram-se de uma forma ainda mais clara e ultrajante no seu ataque
perverso às liberdades fundamentais.
Em 2022, o Conselho Europeu proibiu (sem ter competências legais para tal) todos os órgãos mediáticos de comunicação russos e restringiu severamente a liberdade de actuação dos jornalistas russos no território da UE, uma característica de regimes repressivos e tirânicos.
O exemplo mais recente desse ataque foram as decisões do Conselho (dos Negócios Estrangeiros) da União Europeia, presidido por Kaja Kallas, reunido em 15 de Dezembro de 2025, em Bruxelas, com a presença dos ministros dos Negócios Estrangeiros de todos os Estados-membros da UE. No mais puro estilo da campanha de “caça às bruxas” do senador Joseph McCarthy dos EUA durante o auge da Guerra Fria (final da década de 1940 a meados da década de 1950), este Conselho da União Europeia decidiu prosseguir, sem qualquer base legal, uma campanha de intimidação, perseguição e repressão de vozes críticas da russofobia endémica e da política belicista da UE e da “Coligação dos Dispostos”, aumentando, para esse efeito, uma “lista negra” de inimigos a punir com “sanções” de vária natureza — congelamento das contas bancárias, cancelamento dos cartões de crédito e débito, interdição de entrar na UE ou de sair dela, ou de se deslocar de um país para o outro no seu interior, ou de sobrevoar o seu espaço aéreo para se dirigir a outro país.
A maior parte dos indivíduos e organizações que figuram nessa “lista negra” são russos, residentes na Rússia, acusados de serem propagandistas das teses e pontos de vista russos sobre a guerra na Ucrânia.
Para se avaliar o significado deste facto,
imagine-se que o Conselho da Federação Russa elaborava uma “lista negra” de cidadãos de Estados-membros da UE, acusando-os de
serem propagandistas das teses e pontos de vista da União Europeia.
Elevar-se-ia imediatamente um coro indignado de impropérios contra o “totalitarismo russo” e contra a “autocracia russa”, que “tudo
querem abafar e controlar”. Mas
se for o Conselho da União Europeia a fazer o mesmo em relação à Rússia,
como agora o fez, então tudo é perfeitamente normal e conforme aos “valores europeus”.
A UE, porém, deu agora mais um passo na sua caminhada sobre um leito de brasas. Doravante, da sua “lista negra” ‒ onde já constavam os jornalistas alemães Hüseyin Doğrum [desde 20 de Maio de 2024], Alina Lipp e Thomas Röper [desde 20 Maio de 2025], a consultora comunicacional suíça Nathalie Yamb [desde 25 de Junho de 2025] ‒ constam também outros cidadãos de outras nacionalidades (americana, ucraniana, francesa), acusados de cometerem o crime de lesa-majestade de exprimirem opiniões contrárias às dos órgãos dirigentes da UE sobre Gaza (Doğrum), sobre Africa (Yamb), sobre a Ucrânia (Lipp, Röpe), etc. Entre eles está, por exemplo, o cidadão suíço Jacques Baud, autor de quatro livros indispensáveis para se compreender as guerras na Ucrânia — os quais, manifestamente, os governantes da UE gostariam de queimar num auto-de-fé ou fazer desaparecer num “buraco da memória” do “Ministério da Verdade” imaginado por George Orwell no seu romance presciente Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. Hüseyin Doğrum, Alina Lipp, Thomas Röpe, Jacques Baud, Nathalie Yamb, Xavier Moreau (francês) e outros foram punidos, extrajudicialmente, com “sanções” que equivalem, na UE, a uma «pena de morte socioeconómica e a um apagamento civil», como as qualificou, certeiramente, Nathalie Yamb.
Porém, o reverso da medalha deste episódio
orwelliano é de bom augúrio. É que dele podemos deduzir que a senhora Kaja
Kallas e os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE nunca ouviram falar no efeito Streisand, que poderá acabar por submergi-los.
Uma nota final: a instabilidade causada
pelo desvario da UE e do Reino Unido, assim como o aventureirismo de certos
sectores do complexo político-militar-industrial-mediático dos EUA, incluindo o
de Trump, criam condições propícias para acções provocatórias descontroladas e
de consequências imprevistas e indesejadas.
O
caminho para a Paz
Perante tudo isto, fica reforçada a actualidade das medidas para garantir a paz preconizadas no documento fundador da Conferência Europeia e Cidadã para a Paz na Ucrânia, Rússia e Europa que se reuniu em Lisboa em 22 de Novembro de 2025.
●Medidas
prioritárias e mais urgentes
As medidas prioritárias e mais urgentes que
são necessárias são as seguintes:
● Neutralidade militar permanente da
Ucrânia inscrita na sua Constituição. Renúncia da Ucrânia ao objectivo de
entrada na OTAN (/NATO), com a revogação dos artigos da Constituição ucraniana
que expressam esse objectivo (arts. 85[5], 102, 116 [1]).
● Reconhecimento do direito à
autodeterminação (consagrado no n.º 2 do artigo 1.º, nos artigos 55.º e 73.º da
Carta das Nações Unidas e no artigo 1.º do Pacto Internacional sobre os
Direitos Civis e Políticos), nas suas várias modalidades (autonomia étnica
transterritorial, autonomia étnica regional, federalismo, secessão, integração
voluntária noutro país), da população da Crimeia e das populações dos oblasti do Leste e Sul da Ucrânia que se
sentem mais russas do que ucranianas e que expressaram (ou expressarem)
livremente a sua vontade por meio de referendos.
● Garantias legais de protecção da língua russa como
língua co-oficial da Ucrânia e dos direitos culturais (incluindo a liberdade
religiosa) dos ucranianos russófonos (52% da população ucraniana), bem como dos
direitos culturais dos ucranianos falantes de línguas minoritárias (p.ex.,
húngara e romena).
● Garantias legais de segurança mútua
para a Ucrânia e a Rússia que incluam
― a obrigação da Ucrânia de não permitir o fabrico, a
recepção, o trânsito e o posicionamento de armas nucleares e de outras armas de
destruição maciça no seu território.
― a obrigação da Ucrânia e da Rússia de não permitirem
a instalação de bases militares e a presença de contingentes militares
estrangeiros nos seus respectivos territórios.
● Fim
de todas as “sanções” decretadas contra a Rússia, incluindo:
— a proibição
de difusão de órgãos mediáticos de comunicação social (RT, Sputnik, etc.)
no espaço da UE;
― a
proibição de vistos e viagens na UE, no espaço Schengen, no Reino Unido (RU) e
na Irlanda;
― a
proibição de participação de cidadãos russos em eventos desportivos e
culturais;
— as restrições às importações e exportações
económicas;
— o congelamento sine die dos activos
soberanos do Banco Central da Rússia;
num total de
mais de 26.665 “sanções” (!) ‒ 2.695 “sanções” entre 17 de Março de 2014 e 22
de Fevereiro de 2022, mais 23.960 de 22 de Fevereiro de 2022 a 15 de Agosto de
2025 ‒ que foram impostas à Rússia por parte da Suíça (4.029), UE (2.782),
França (2.711), Reino Unido (2.333), dentro da Europa; e por parte dos EUA
(7.392), Canadá (4.176), Austrália (1.791) e Japão (1.441), fora da Europa.
● Formação de uma Comissão de Verdade e Reconciliação nos moldes daquelas que deram
resultados tão satisfatórios na África de Sul pós-apartheid e em
Timor-Leste pós-independência.
Esta
comissão independente poderia começar a fazer o seu trabalho imediatamente após
a assinatura do Acordo de Paz ‒ ouvindo as queixas (de todos os lados) de
violação dos direitos humanos desde 2014 ‒ independentemente dos processos de
investigação forense conducentes aos julgamentos dos crimes de guerra, que
serão necessariamente muito morosos.
● Os julgamentos por crimes de guerra, deverão ser organizados
pelos respectivos Estados, como sugeriu o eminente jurista Alfred de
Zayas.
Isto significa
que os julgamentos de crimes de guerra alegadamente cometidos por russos
deverão ser organizados por tribunais russos e os julgamentos de crimes de
guerra alegadamente cometidos por ucranianos deverão ser organizados por
tribunais ucranianos.
Estas
são as sete medidas prioritárias e mais urgentes necessárias para se alcançar
um acordo de paz duradoura na Ucrânia e Rússia.
●Medidas a médio prazo
Para
construir uma paz duradoura na Europa é necessário delinear, debater e aprovar
uma nova arquitectura
de Cooperação e Segurança Europeia que abranja todos os países da Europa (incluindo
a Rússia) e que respeite escrupulosamente o princípio da indivisibilidade da
segurança internacional:
a noção de que a segurança internacional é
interdependente — ou seja, não há segurança de uns países sem a segurança, ou
em detrimento da segurança, dos demais.
Essa
arquitectura deve incluir as seguintes medidas de construção e desenvolvimento
da confiança:
● Eliminação de todas as armas nucleares dos EUA
e da Rússia (e de todas as infra-estruturas existentes para a sua utilização)
fora dos seus respectivos territórios nacionais — como é o caso das bases
aéreas da OTAN (/NATO) na Europa que albergam ogivas nucleares dos
EUA: Incirlik (Turquia); Aviano e Ghedi-Torre (Itália); Kleine Brogel (Bélgica); Büchel (Alemanha), Volkel (Holanda), bem
como das bases aéreas que albergam as ogivas nucleares que a Rússia posicionou
na Bielorrússia no âmbito da Organização do Tratado de Segurança
Colectiva (OTSC).
● Erradicação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Europa ‒ por denúncia/retirada do seu Tratado (prevista no seu artigo 13.º) por parte dos seus Estados-membros europeus – seja (i) por denúncia simultânea de todos eles, ou (ii) por denúncia/retirada individual sucessiva dos seus Estados-membros europeus, ou (iii) por denúncia/retirada concertada de grupos sucessivos dos seus Estados-membros europeus ou (iv) por uma combinação de (ii) e (iii), e Erradicação (concomitante da erradicação da OTAN do continente europeu) da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OTSC) na Europa por denúncia/retirada do seu Tratado (prevista no seu artigo 11.º) por parte dos seus Estados-membros europeus — Rússia, Bielorrússia, Arménia (+ Sérvia como membro observador).
●Medidas a longo prazo
Estas
medidas a médio prazo são, por sua vez, as que abrem caminho ao fim das armas
nucleares, condição necessária para prevenir um apocalipse nuclear, o que
exige:
● a proibição de conceber, testar,
produzir, fabricar, adquirir, possuir ou armazenar armas nucleares ou outros
engenhos explosivos nucleares, tal como dispõe o artigo 1.º do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN),
aprovado pela Assembleia Geral da ONU em 4 de Dezembro de 2017.
| Estimativas do número de ogivas nucleares das 9 potências nucleares em 2025. Fonte: SIPRI, 2025, via Federation of American Scientists, 2025. |
Inventário estimado do estatuto das armas nucleares existentes. Fonte: Hans M. Kristensen, Matt Korda, Eliana Johns, & Mackenzie Knight-Boyle, Federation of American Scientists, 2025.[n.a.= not available (número não disponível)] |
Convém
lembrar que o TPAN foi, até à data, subscrito por 93 países (mas não por
Portugal), dos quais 70 já o ratificaram. Os países que o ratificaram estão, na
sua maioria, na Ásia, África e América Latina, e não são potências nucleares.
Dos 32 países-membros da OTAN (/NATO) ‒ incluindo, portanto, EUA, França e
Reino Unido, detentores de armas nucleares, e os 22 países da UE que também são
membros da OTAN ‒ nenhum subscreveu e ratificou o tratado. Isto mostra bem que
esta organização é uma aliança nuclear muito ciosa do seu poder de destruição.
● O desmantelamento simultâneo e mutuamente controlado (por inspectores de todas as partes envolvidas) do arsenal nuclear da Rússia, dos EUA, da França, do Reino Unido e demais potências nucleares: China, Índia, Paquistão, Israel, Coreia do Norte.
Fundado em 1945 por Albert Einstein, J. Robert Oppenheimer e cientistas da Universidade de Chicago que ajudaram a desenvolver as primeiras armas atómicas no Projecto Manhattan, o Boletim dos Cientistas Atómicos criou o Relógio do Apocalipse em 1947, usando a imagem bíblica do Apocalipse (meia-noite) e a linguagem da explosão nuclear (contagem regressiva para zero) para transmitir as ameaças à humanidade. O Relógio do Apocalipse é acertado anualmente pelo Conselho de Ciência e Segurança do Boletim, em consulta com seu Conselho de Patronos, que inclui oito laureados com o Prémio Nobel. Em 27 de Janeiro de 2026 o relógio foi acertado para 85 segundos para a meia-noite — 4 segundos mais perto do Apocalipse do que em 2025 e o pior resultado desde a sua criação. Fonte: Bulletin of the Atomic Scientists.
|
O princípio a aplicar nesta tarefa é muito simples e já deu as suas provas: «Confiar, mas verificar». A tarefa é colossal, mas executável, como ficou demonstrado pelo Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, celebrado entre a União Soviética (e depois a Rússia, o Estado sucessor) e os EUA em 1987, também conhecido como Tratado INF (Intermediate-Range Nuclear Forces) ou Tratado FNI (Forças Nucleares Intermediárias), que durou até 2019, quando foi denunciado pelos EUA.
| Potência destrutiva comparada das armas nucleares russas e americanas actuais com a bomba atómica de Hiroshima. Fonte: Professora Ivana Hughes (Columbia University, EUA) & Professor Steven Starr (University of Missouri, EUA) via Neutrality Studies, 17 de Janeiro 2026 |
.
O
Tratado FNI previa a destruição dos mísseis nucleares com alcance entre 500 e
5.500 quilómetros em três anos. E isso foi feito com êxito. Ao todo, foram
destruídos 2.692 mísseis antes de 1991 — ou seja, a quase totalidade dos
mísseis nucleares de alcance intermediário e pouco mais de 4% do arsenal
nuclear total de ambos os países em 1987.
| Primeira imagem: efeitos destrutivos da bola de fogo criada pela explosão de uma bomba nuclear de 800 quilotoneladas. Segunda imagem: os ajudantes de campo que acompanham para todo o lado os presidentes da Rússia e dos EUA com as maletas pretas que lhes permitem comunicar e autorizar um ataque nuclear. Fonte: Professora Ivana Hughes (Columbia University, EUA) & Professor Steven Starr (University of Missouri, EUA), via Neutrality Studies, 17 de Janeiro 2026. |
Uma
das inovações do Tratado FNI foi a adopção de procedimentos de verificação
mútua das destruições de armas nucleares por parte de inspectores de cada país.
Um
genuíno sistema de segurança e paz não será estabelecido na Terra até que, pelo
menos, os tratados de desarmamento nuclear tenham sido assinados e ratificados
por todos os Estados que têm armas nucleares e as armas nucleares forem
definitivamente erradicadas.
………………………………………………………………………………
Subscrevem esta Declaração as
seguintes pessoas (por ordem alfabética do apelido):
●Jorge
Aires (Portugal): Major-General da Força Aérea (R)
●José Manuel
Baptista Alves (Portugal): Coronel da Força Aérea (R), engenheiro, militar de Abril [*]
●João Sousa
Andrade (Portugal): Economista, professor do ensino superior universitário,
investigador
● Ana Laura
M. V. Araújo (Portugal): Germanista, professora do ensino superior
politécnico
● António Miguel
Avelãs (Portugal): Professor do ensino secundário, ex-presidente do
Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL)
● Patrik
Baab (Alemanha): Jornalista, professor do ensino superior universitário
●Francisco
Balsinha (Portugal): Jornalista, militante das causas dos Direitos Humanos
e do Povo palestino
● Manuel
Begonha (Portugal): Capitão-de-Mar-e-Guerra da Marinha (R), militar de
Abril
● Carlos
Branco (Portugal): Major-General
do Exército (R), especialista em resolução de conflitos
● Jean
Bricmont (Bélgica): Físico
teórico, filósofo, professor do ensino superior universitário
● Isabelle
Casel (Alemanha): Artista independente, activista pela paz, conselheira
● Luís
Alfaro Cardoso (Portugal): Veterinário, investigador, professor do ensino superior
universitário
● José
Roberto Tinoco Cavalheiro (Portugal): Engenheiro de materiais, professor do
ensino superior universitário, investigador
● Pedro Júlio de Pezarat Correia (Portugal): Major-General do Exército (R), professor do ensino superior universitário (jubilado), militar de Abril [*](no activo)
●Alain
Corvez (França): Coronel do Exército (R), conselheiro de estratégia
internacional
●Raul Luís
Cunha (Portugal): Major-General do
Exército (R), historiador
●Hugo Dionísio
(Portugal): Advogado, investigador independente
●Jean-Christophe
Emmeneger (Suíça): Ex-jornalista,
investigador especializado na história dos serviços secretos de informações,
escritor-viajante
●Paulo Aníbal
de Oliveira Fidalgo (Portugal): Médico,
gastroenterologista
●Júlio
Manuel Dias Gomes (Portugal): Economista, professor do ensino superior universitário
●Ulrike
Guérot (Alemanha): Filósofa política, activista pela paz, professora do
ensino superior universitário
●Manuel Beirão
Martins Guerreiro (Portugal): Contra-Almirante da Marinha (R), militar de
Abril
● Jacques
Hogard (França): Coronel do Exército (R), historiador, consultor em
geopolítica
● Cipriano
Justo (Portugal): Médico, professor do ensino superior universitário
●Augusto
Küttner (Portugal): Gestor de Recursos Humanos
● Manuel
Soares Leitão (Portugal):
Produtor cultural
●Luís M.
Loureiro (Portugal): Jornalista,
professor do ensino superior universitário
●Albino
Matos (Portugal): Jurista
● Guy Mettan (Suíça): Jornalista, cronista, deputado,
historiador
● José
Manuel Costa Neves (Portugal): Major-General da Força Aérea (R), militar de
Abril
●Fernando
Oliveira (Portugal): Engenheiro
químico, tradutor-intérprete de Conferência
● Rui Pereira
(Portugal): Jornalista, professor do ensino superior universitário
●Rui Manuel
Vaz Pinto (Portugal): Economista, livreiro, editor
●João Luís B. Pena dos Reis (Portugal): Procurador-geral-adjunto (jubilado) do Ministério Público
●Fabrice Saint-Pol (França): Capitaine de Corvette de réserve
[commandant], Marine nationale, engenheiro civil
●Richard Sakwa (Reino Unido): Politólogo, historiador,
professor do ensino superior universitário
●José Aranda da Silva (Portugal): Coronel do Exército (R), farmacêutico, professor do ensino superior universitário, militar de Abril [*]
● José
Catarino Soares (Portugal):
Linguista, professor do ensino superior politécnico
● Luís
Souta (Portugal): Antropólogo, professor do ensino superior politécnico,
escritor
●Harald
Walach (Alemanha): Psicólogo, filósofo, professor do ensino superior universitário.
● Alfred-Maurice
de Zayas (Suíça): Jurista, professor do ensino superior universitário [**]
…………………………………………………………………………….
[*] A designação “militar
de Abril” refere-se, de forma sóbria e objectiva, aos militares
responsáveis pela deposição do regime fascista de Salazar-Caetano em 25 de
Abril de 1974. É intercambiável com a designação “capitão
de Abril”, porque a grande maioria destes militares era, à época, constituída
por capitães.
[**] Alfred-Maurice de Zayas identificou-se da seguinte maneira quando
subscreveu a Declaração.
“Já fui Perito Independente da ONU para a Ordem Internacional
(2012-2018), advogado sénior do Gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Direitos Humanos, e professor visitante em diversas universidades nos
EUA, Canadá, Irlanda, Alemanha, Espanha e Suíça, e sou actualmente professor de
direito internacional na Escola de Diplomacia de Genebra. Pax optima
rerum [A paz é o melhor dos bens] era o lema da
Paz de Vestfália — os EUA, a OTAN e os Estados da UE deveriam reconhecer a xdsua
responsabilidade por terem provocado esta guerra. É preciso encontrar um modus
vivendi que garanta a segurança nacional de todos os países e a
autodeterminação de todos os povos”.